A conversação espiritual

Publicado: Terça, 01 Setembro 2020
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Um dos elementos mais inovadores que nos trouxe a 36ª Congregação Geral e que penso ainda não ter sido suficientemente valorizado é a chamada ´conversação espiritual´. É como um pequeno e valioso presente que uma criança recebe na noite de Natal e que, ao envolver-se na magnitude da festa, da música e das expectativas do momento, se esquece dele ainda embrulhado, esperando que o seu destinatário o descrubra. Eu mesmo sou um convertido ao valor infinito (literalmente) desse instrumento para o discernimento da missão.

Depois da 36ª Congregação Geral, quando comecei a participar das três reuniões anuais do Conselho Ampliado do P. Geral, achava artificial e muito formal a insistência de alguns companheiros (especialmente da Europa) para que usássemos a metodologia da ´conversação espiritual´: três rodadas de diálogo fraterno no Espírito no qual, depois da oração pessoal e do exercício de ´anotar as moções´, coloca-se em comum numa primeira rodada o que foi escrito, sem glosas nem comentários nem perguntas e deixa-se repousar o que foi ouvido. Num segundo turno estabelece-se um diálogo de esclarecimento ou de aprofundamento de determinadas questões. Por fim, numa terceira volta, percebem-se (experimentam-se, identificam-se) os acordos e desacordos para encontrar ´um caminho aberto´ como fizeram os primeiros padres em suas deliberações.

A insistência e a simplicidade do método causavam-me certa repulsa; exatamente a da criança que despreza o pequeno presente para concentrar a sua atenção em presentes maiores. E eu não era o único no grupo; parecia-nos que o discernimento era algo mais complicado, mais difícil, mais profundo, muito mais sério. A verdade é que, aos poucos, à medida que íamos acolhendo a simplicidade do método e indo além do seu serviço (do recipiente ao conteúdo) e nos deixávamos tocar pela ação do Espírito, as barreiras ideológicas e os preconceitos foram caindo. E não só isso, mas aprendemos também a fazer da ´conversação espiritual´ um instrumento habitual e central do discernimento, sem por isso confundi-la com ele.

Assim foram alimentadas todas as conversas do Conselho Ampliado do P. Sosa. Assim se enriqueceram todas as assembleias e deliberações dos provinciais no seio da CPAL desde 2017: as nossas contribuições ao processo de escolha das Preferências Apostólicas Universais (PAUs), a decisão sobre o 4º ano de Teologia, o discernimento sobre o processo de reestruturação das províncias, as orintações sobre o processo de avaliação do Plano Apostólico Comum 2010-2020 (PAC) e o planejamento do PAC 2 (2021-28), bem como a decisão recentemente tomada sobre o Centro Interprovincial de Formação CIF de Santiago do Chile no âmbito da avaliação e melhoria do três CIF por ocasião de seus 10 anos.

Escolher (além de decidir) é o exercício supremo da identidade, da dignidade e da liberdade, o mais precioso dos bens divinos. Todos somos obrigados todos os dias a tomar decisões e a fazer escolhas no âmbito pessoal, grupal ou institucional. Sempre há a possibilidade de acertar ou errar - homines sumus. Contra a tentação mais comum de decidir e escolher motivada pelo ´próprio amor e interesse´, a conversação espiritual oferece-nos um precioso instrumento para nos deixarmos guiar pelo Espírito em função da missão que nos foi confiada.

É tão simples que podemos negligenciar seu valor infinito; sua simplicidade desafia nossos métodos e nossos preconceitos. Na medida em que a conversação espiritual se torna um modo habitual de intercâmbio em nossas comunidades, grupos e obras apostólicas, ela prepara o discernimento como forma de fazer escolhas em função da vida-missão da Companhia. Vamos aproveitá-la.

 

Roberto Jaramillo, SJ.

Presidente CPAL

 

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