Não vês isto? Faço novas todas as coisas (Apc 21,5)

Publicado: Quinta, 30 Abril 2020
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Esta é a primeira vez na história das gerações vivas que experimentamos uma crise verdadeiramente universal. Um bicho minúsculo – que nem é um organismo vivo – tem nos obrigado a todos a baixar das nuvens do consumo e da realidade midiática em suas mais diversas formas, e nos forçou - independentemente de qualquer diferença - a pôr os pés na ´realidade ´: somos pó!

Por um lado, é reconfortante ver a multiplicidade de iniciativas apostólicas implementadas em muitas instituições e comunidades da Companhia Universal e, particularmente da CPAL. Não há dimensão apostólica dos nossos trabalhos na qual não se tenham gerado respostas criativas: retiros e acompanhamento espiritual, fundos de ajuda para alimentação de famílias carentes, programas de educação a distância para crianças, jovens e adultos; abertura de espaços físicos para atenção a pessoas vulneráveis ou doentes, apoio psicológico ´on-line´, alianças com outras organizações públicas e privadas para atender aos necessitados, coletas locais ou regionais de alimentos, incluindo assistência pastoral e humanitária a moribundos; além de tudo o que isso tem representado em termos de diálogo, interação e acordos entre os membros do corpo apostólico, e particularmente entre os jesuítas.

Por outro lado, a pandemia questiona existencialmente nossa imagem de Deus e sobretudo nossas formas de nos relacionarmos com Ele. Deus não está definitivamente fora da realidade, mas dentro do processo evolutivo. Ele é o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; existe no ´modus laborandis´, como diz Santo Inácio. E mais: no mistério da encarnação dispõe-se a ´padecer´ humanamente toda realidade como caminho de redenção. Por isso, encontramo-lo não em ritos e práticas religiosas, mas na mais crua realidade atual: nos doentes, nos famintos, nos desesperados, nos que imploram ajuda e solidariedade; e positivamente nos que são seus próximos: os que se aproximam deles (Lucas 10,25-37). O outro não passam de mediações, na maioria das vezes até inconvenientes! Aí tem sentido profético o que dizia o Papa Francisco em sua mensagem ao mundo em 27 de março, quando afirmava que o vírus descobre essas certezas falsas e supérfluas em torno das quais temos construído nossos horários diários, nossos projetos, nossos hábitos e problemas.

A verdadeira Igreja, a dos filhos e filhas de Deus (não a religião) neste tempo de coronavírus, já está se reinventando; e não é que tenhamos que reinventá-la mais tarde. Ela está viva e encontrando seus caminhos, os mais originais (em todos os sentidos). O clericalismo - em todas as suas formas - não só se acha vulnerável, mas tornou-se irrelevante, e o verdadeiro papel do clérigo e da hierarquia terá que ser - isso sim - completamente reinventado; assim como o das formas religiosas em geral.

E o que afirmamos do papel do clero, da Igreja e de suas formas religiosas e do clericalismo deve ser dito também da vida religiosa e da Companhia de Jesus. É tempo de voltar às origens, é tempo de reinventar-nos pessoal, comunitária e institucionalmente; é tempo de escuta atenta ao que o Senhor quer nos comunicar; tempo de discernimento e docilidade às indicações do Espírito, que está tornando novas todas as coisas (Ap 21,5).

Se cada um de nós - jesuítas e todos os membros do corpo apostólico da Companhia de Jesus – vive este tempo só esperando que passe a pandemia para recuperar seu modo de vida: seus gastos, suas diversões, seus hábitos de consumo, suas prioridades, seus horários, seus ritos (grandes ou pequenos, privados ou públicos), suas certezas e as respostas que já encontrou... e sai ileso após desta experiência de crise universal (com suas variações sociológicas nacionais) significa que mora na lua e que a historia deixou-lhe na mais absoluta irrelevância. A novidade que todos esperamos não chegará se cada um de nós não a construir.

 

Roberto Jaramillo Bernal, S.J.

Presidente de la CPAL

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