Com generosidade e eficácia

Publicado: Domingo, 01 Março 2020
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Através da reflexão das últimas Congregações Gerais, foi se enriquecendo de maneira generosa o entendimento do que significa para nós o serviço da fé e a promoção da justiça. Notas características dessa missão são:

  • - diálogo com as diversas culturas e religiões,
  • - a consciência de participarem todos – a partir de diversas perspectivas e tarefas - numa única missão que é a de Cristo (misio Dei),
  • - formando comunidades de solidariedade,
  • - que sejam manifestação da reconciliação entre os homens, com a criação e com Deus.

Mas talvez dentre as contribuições mais importantes da evolução desta reflexão sobre a missão Fé e Justiça tenha a ver com uma compreensão mais profunda do que significa promoção da justiça em termos de prática pessoal e institucional, e não só de discurso.

Se num primeiro momento (pós 32ª C.G.) pensava-se e atuava-se com respeito à promoção da justiça como se a justiça chegasse a um lugar onde terminava a caridade, hoje (especialmente após a 36ª C.G.) a noção de justiça foi tão enriquecida que se pode afirmar que é a verdadeira caridade que começa onde termina a justiça. Assim, a profunda e verdadeira reconciliação na justiça que nasce e se alimenta da fé vai muito além da justiça que não está marcada pelo amor cristão.

Arrupe insistia que, embora seja possível abusar da caridade, tornando-a um subterfúgio da injustiça, não se pode fazer justiça sem amor. Tampouco se pode prescindir do amor quando se resiste à injustiça, uma vez que a universalidade do amor é, por desejo de Cristo, um mandato sem exceções (Enraizados e fundados na caridade, 1981, n. 56). É por isso que o nosso apostolado social, a nossa luta pela justiça, é algo muito diferente, muito superior a qualquer tipo de promoção meramente humana e supera essencialmente qualquer concepção filantrópica, sociológica ou política: porque nos move o amor de Deus em si mesmo e o amor a Deus nos homens. E nesse sentido, é obra eminentemente apostólica e, como tal, plena e absolutamente jesuíta no sentido mais rigoroso do nosso carisma.

O Papa Francisco colocou esta realidade no centro de sua proclamação da Boa Nova: o princípio da misericórdia nada mais é do que a justiça do evangelho levada ao extremo, máxima manifestação da caridade: amar como Deus nos ama, entregando tudo por aquele e aquilo que, antes desse resgate, estava perdido. A justiça que nasce da fé identifica-se com a ação misericordiosa de Deus que redime todos.

Uma das passagens evangélicas paradigmáticas desta dinâmica do amor que se faz justiça e da tensão que ela implica em termos de generosidade e eficácia, de compromisso e de gratuidade, é a parábola do ferido na estrada e do homem que se compadece dele (Lc 10, 27-37). O estrangeiro viu (1) o homem ferido na beira da estrada, parou (2), desceu do cavalo (3), aproximou-se (4), tocou-o (5), tratou-o com o seu óleo (6), deu-lhe de beber do seu vinho (7), tratou dos seus ferimentos (8), colocou-o no seu cavalo (9) e levou-o ao albergue (11), cuidou dele a noite toda (12), pagou suas despesas (13) e providenciou o seu futuro (14); e não é de graça que Jesus em sua parábola indique que quem fez isso foi samaritano, enquanto outros, um padre que descia do templo e levita (especialista em lei), nada fizeram por ele.

Porque o exercício da misericórdia (que é a manifestação máxima da justiça) é uma decisão positiva que constrói algo novo onde a justiça não existe, onde o respeito não se manifesta, onde a reconciliação é impensável. Onde o injustamente tratado não é injusto, o violentado em sua dignidade não é violento, o desprezado não despreza, o excluído não exclui, o perseguido não persegue, o caluniado não difama, o enganado não mente, o ofendido não ofende, o condenado não condena, aí se manifesta perfeitamente uma tensão (divinamente) entre generosidade e eficácia, entre compromisso e gratuidade.

No exemplo (obras) e ensino (palavras) de Santo Inácio de Loyola, podemos encontrar claramente essa tensão dinâmica entre a generosidade (gratuidade) e a eficácia. Santo Inácio sabe que o amor deve ser mais trabalhado do que em palavras e insiste nele em uma das passagens mais típicas dos Exercícios Espirituais (Ad amorem), quando o exercitante já terá passado por um cuidadoso processo de depuração e purificação de sua resposta ao Amor. Enquanto isso, nos escritos em que dá orientações para o dia a dia da Companhia de Jesus, insiste repetidamente na necessidade de viver na caridade discreta, na caridade discernida, na caridade ordenada, na caridade particular, na caridade verdadeira, mostrando com esses e outros adjetivos que nem todo exercício de caridade é o que leva a tomar as melhores decisões e a tornar real (realizar) o amor de Deus e o amor a Deus.

Essa tensão criativa que supõe amar efetivamente, com todas as consequências que ambas dimensões exigem está refletida na famosa frase: fazer tudo como se só dependesse de nós e esperar tudo como se só dependesse de Deus 13.

 

Roberto Jaramillo Bernal, S.J.

Presidente da CPAL

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