Para vinho novo, odres novos

Publicado: Quarta, 31 Julho 2019
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PALAVRA DA CPAL

Introdução do P. Geral, Arturo Sosa, à primeira sessão do Conselho Ampliado (Roma: 10/06/2019)

 

Com a autorização do Pe. Geral, compartilhamos alguns parágrafos (pontos 3 a 5) de sua comunicação introdutória à primeira sessão do Conselho Ampliado. A força e a clareza de suas palavras dispensam comentários. Convido a todos a fazerem destas palavras tema de oração e motivo de conversação espiritual nas comunidades e obras (P. Roberto Jaramillo).

 

(...) A experiência de comunicar à Companhia esta missão recebida do Santo Padre através das Preferências Apostólicas Universais tem me confirmado, tanto sobre a profundidade como na complexidade da mudança que nos é exigida. (...) Ser consciente de ter recebido uma missão do Santo Padre ajuda a nos aprofundar na responsabilidade que temos de renovar nossa vida-missão bebendo nas fontes do carisma que levou à fundação da Companhia de Jesus. (…) Compartilhar as PAU com outros membros do corpo apostólico, ressalta como o Espírito nos levou a buscar atender a necessidades universais - como nas anteriores preferências (2003) - para vislumbrar desafios para a nossa vida diária como religiosos consagrados ou pessoas que aceitaram o convite para colaborar na obra de Deus na história humana. (…)

Voltando à carta de promulgação (2019/6–19 de fevereiro de 2019): As preferências apostólicas universais propõem aprofundar esses processos de conversão pessoal, comunitária e institucional. São orientações para melhorar o trabalho apostólico do conjunto do corpo da Companhia e a maneira como realizamos nossos ministérios nos quais tomarão corpo (…). As PAU, como insiste P. Endean, não são apenas sobre o que fazemos. Estas preferências são também sobre como Deus pode nos mudar. Elas só poderão orientar nossa vida-missão se a nossa fé se basear na experiência pessoal de Deus e na convicção da qual deriva: Deus é maior que nós, a sua ação transcende amplamente os nossos limites; Ele quer e pode comunicar-se conosco, com cada um dos seres humanos. (...)

A Companhia de Jesus vive um momento de transição cuja magnitude não é fácil de ser percebida por nós mesmos que a estamos vivendo. O Senhor já advertiu: ninguém coloca vinho novo em recipientes velhos de couro; se isso acontecer, o vinho novo vai estourar os recipientes, o vinho se derramará e os recipientes também se perderão. Coloquem o vinho novo recipientes novos. E vejam: quem está acostumado com o vinho envelhecido não vai querer o vinho novo, mas dirá: O envelhecido é melhor! (Lc 5,37-39).

Não deixemos passar a última frase da advertência do Senhor. Não somente estamos ´acostumados´ a um modo de viver e trabalhar apostolicamente, mas podemos até estar ´orgulhosos´ do nosso atual modo de vida-missão. Pode parecer-nos não apenas bom, mas o melhor, e leva a nos conformar, a não querer outra coisa... porque o vinho envelhecido é melhor. A mudança de época histórica que vivemos, as mudanças que se sucedem a uma velocidade que nos custa acompanhar... são os novos ´recipientes de couro´ nos quais somos chamados a derramar o vinho novo da Boa Nova de Jesus Cristo de nossa vida-missão profundamente transformada pela experiência do encontro com o Senhor.

(...) É a tentação de transformar a nossa história em mito para alimentar o nosso orgulho corporativo, em vez de experimentá-la como tradição inspiradora de fidelidade ao seguimento de Jesus e serviço da Igreja. Podemos vencer essa tentação se conseguirmos viver nossa história como memória libertadora do relativo de cada época para ajudar-nos a permanecer vinculados e alimentados pela fonte de nosso carisma, vocação e decisões apostólicas. Não tenho dúvidas da necessidade de aprofundar e ampliar o conhecimento crítico da história da Companhia. Para isso, necessitamos mais pesquisadores e assegurar a sua transmissão no processo de formação dos membros do corpo apostólico. Caso contrário, o adjetivo ´jesuíta´ será apenas uma espécie de ´marca´ comercial, sem a força inspiradora de uma identidade de vida-missão.

(...) Não pretendo nesta introdução – nem creio que me seja possível - fazer um relato, nem sequer um esboço, das mudanças que a missão da Companhia experimentou nas últimas décadas em seu esforço para ser criativamente fiel aos novos desafios da história. (...). Limito-me a mencionar algumas dimensões que têm estado muito presentes na experiência de comunicar as PAU aos diversos grupos do corpo apostólico da Companhia.

O primeiro é o desafio de perceber a sociedade secular como sinal dos tempos, isto é, como sinal do Espírito para inspirar maneiras inovadoras de indicar o caminho para Deus e contribuir para a reconciliação. A palavra ´secular´, em princípio, nos soa mal. Experimentamos a secularização como perda de algo valioso, dá-nos saudade do passado ´católico´ da ´civilização´, no qual se deu o processo de restauração da Companhia. Percebemos melhor os extremos e as ameaças das diversas formas de secularismo – inclusive as que se incorporam em nós - que as oportunidades que se abrem nas sociedades seculares ou no processo de secularização. Um olhar ´espiritual´ coloca-nos o desafio de encontrar Deus na sociedade secular e mostrar o caminho para Ele. A capacidade de encontrar Deus em todas as coisas (pessoas, tempos e lugares) é o resultado do encontro com Deus experimentado por Inácio e transmitido através dos Exercícios Espirituais. Experiência que, ao mesmo tempo, nos leva a melhorar nossa capacidade de ouvir o clamor dos pobres e excluídos, para encontrar com eles caminhos para a justiça e a reconciliação. (...)

A segunda dimensão presente em nossa vida num mundo globalizado é a ´internacionalização´ de nossas percepções, estilos de vida, formação e modos de atuar. Entendo a palavra ´internacionalização´ como a superação dos limites característicos de épocas históricas anteriores, nas quais a ´nação´, como território e/ou pertença étnica ou cultural, marca a identidade de pessoas e grupos. A globalização supõe que se diluem os limites em todas as esferas da vida humana. Também na nossa vida cristã, eclesial, religiosa e apostólica. Tomar consciência deste processo ajuda a libertar-nos das ataduras do passado e adquirir a indiferença necessária para construir os novos ´recipientes de couro´ necessários para que o vinho novo não se derrame. Acompanhar conscientemente e adaptar-nos, de acordo com a inspiração do Espírito, à novidade que essa tendência representa, superar as formas do passado e aproveitar para o Evangelho as novas formas, relações e espaços que estão surgindo, é um dos mais complexos desafios do governo da Companhia.

Por outro lado, o corpo apostólico universal da Companhia é hoje - graças a Deus - multicultural. Além disso, ele vive e atua em uma incrível variedade de contextos culturais. Assim, descobrimos outra faceta de como o Senhor age na história. A diversidade cultural é uma das muitas formas nas quais se revela a riqueza da face de Deus que nos criou à sua imagem e semelhança é revelada (Ef 3,10). A fé cristã se encarna em toda cultura humana para mostrar o caminho para Deus e transformá-la completamente através do perdão dos pecados, isto é, iluminando o caminho para a reconciliação em todas as suas dimensões. A releitura do livro dos Atos dos Apóstolos neste tempo Tempo Pascal lembrou-nos novamente como o Espírito Santo conduziu as primeiras comunidades cristãs nessa direção e quanta resistência teve que vencer para ir além do ponto de partida da cultura dos primeiros discípulos e abrir-se a outras culturas para realizar a missão de anunciar a Boa Nova em toda parte. Essa tensão está presente no interior da Companhia, chamada a ser universal, a assumir, portanto, o tesouro de sua multiculturalidade e avançar conscientemente avançar para a interculturalidade.

 

 Arturo Sosa, S.J.

10 de junio de 2019

 (Original: español)

 

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