O que temos aprendido desta crise?

Publicado: Segunda, 01 Julho 2019
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A crise de credibilidade que vive a Igreja chilena e que também golpeou duramente a Companhia de Jesus, como resultado dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes, tem nos levado a rever e refletir sobre as causas da perda de credibilidade e confiança na instituição.

Tem sido uma dolorosa oportunidade de aprendizado descobrir quanto dano e sofrimento puderam causar alguns dos nossos ao abusar de pessoas inocentes e indefesas, assim como nossa negligência em vários casos para atuar adequadamente.

Devemos colocar como objetivo o que disse o Papa Francisco: A Igreja não se cansará de fazer todo o necessário para levar à justiça quem tiver cometido tais crimes, porque os pecados e os crimes das pessoas consagradas adquirem uma conotação ainda mais obscura de infidelidade, de vergonha, e deformam o rosto da Igreja minando sua credibilidade.

Mais concretamente, o que temos aprendido?

No Chile, os jesuítas temos aprendido várias lições de grande importância. Um primeiro aprendizado tem sido aprender a colocar no centro a pessoa abusada, para ouvi-la primeiro, acolhê-la e tentar reparar o dano causado. É preciso colocar-se do lado das vítimas e buscar justiça e reparação.

Temos aprendido que a dignidade das pessoas, especialmente das mais vulneráveis, vem antes do prestígio, da imagem e da reputação da instituição. Já o reafirmava o Papa Francisco em 24 de fevereiro deste ano, em Roma, ao concluir o encontro sobre a proteção de menores na Igreja: Se na Igreja também se descobre um único caso de abuso – que por si mesmo já representa uma monstruosidade -, este caso será enfrentado com a maior seriedade.

Neste longo processo, temos aprendido a chamar as coisas pelo seu nome, reconhecendo que o abuso sexual é um crime detestável e não uma falha moral. E, ainda mais importante, que não se pode compreender o fenômeno dos abusos sexuais sem considerar o abuso de poder, já que os abusos sexuais são sempre consequência da supremacia ou do controle que exerce uma pessoa sobre outra, aproveitando-se de uma posição de inferioridade ou vulnerabilidade.

Temos aprendido, também, que a transparência e a rapidez na entrega de informações à opinião pública em casos de abuso são fundamentais para a credibilidade da instituição; uma comunicação que seja proativa e não reativa, sabendo cuidar da honra das pessoas e do devido processo.

Cultura do cuidado

A Companhia de Jesus no Chile desenvolveu uma política de prevenção de abusos sexuais implementando diversas medidas para garantir em todas as suas obras espaços saudáveis e seguros, especialmente naquelas instituições que cuidam de crianças, adolescentes e adultos vulneráveis.

Além disso, em 2018, foi criada uma Comissão de Estudo e Propostas sobre Abuso Sexual, Prevenção e Reparação, integrada por destacados profissionais independentes. Essa comissão reuniu-se mensalmente durante 9 meses e no final de janeiro deste ano entregou um relatório propondo ações e melhorias concretas com relação à prevenção de abuso sexual e os procedimentos de acolhida, investigação e acompanhamento dos casos de abuso envolvendo membros da Companhia de Jesus no Chile.

Seguindo essas recomendações, em 5 de abril, foi reorganizado o Centro de Prevenção e Reparação, escritório destinado a receber as denúncias, gerenciar processos em andamento e proporcionar maiores garantias de imparcialidade e profissionalização em matérias de prevenção e reparação. Este Centro é dirigido por uma advogada criminalista e a equipe conta com o trabalho de dois jesuítas e de uma psicóloga especialista em trabalho com vítimas de abusos sexuais.

Também como resultado das recomendações da Comissão Grupo de Estudo, foi constituído um Comitê para a Acolhida de Denúncias, cujo objetivo é assessorar o Provincial em tudo o que implica o início e desenvolvimento das investigações canônicas que afetam algum membro da Companhia. Este Comitê é integrado por uma advogada criminalista, um advogado especializado em direitos humanos e uma psicóloga com vasta experiência no trabalho com vítimas. O Provincial, voluntariamente, comprometeu-se a seguir as indicações deste Comitê para o que implica a decisão de abrir uma prévia investigação canônica.

Estamos caminhando. Aprendemos muito, mas ainda temos muito a percorrer. O maior desafio é consolidar a mudança de cultura, uma cultura do cuidado, da escuta, do diálogo, da transparência e da reparação. Só assim poderemos cuidar do nosso passado e seremos capazes de impedir que situações tão dolorosas como as que foram vividas voltem a repetir-se no futuro.

 

Cristián del Campo, S.J.

Provincial do Chile

 

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