Divino tesouro! Rolando Alvarado S.J.

Publicado: Sexta, 01 Março 2019
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Assim o poeta Ruben Dario, num dos seus versos mais célebres, qualifica esta etapa central da vida na qual se configuram os ideais e esboçam nossos sonhos: Juventude, divino tesouro, já vais para não voltar, quando quero chorar não choro e às vezes choro sem querer!

Na Igreja Católica, como na Companhia de Jesus, estamos há dois anos refletindo e dialogando intensamente sobre o valor e a importância deste tesouro. A Igreja, por ocasião do Sínodo de outubro do ano passado, chegou a considerar os jovens como lugar teológico, declaração incisiva para os que acreditamos na fé que o Deus de Jesus se nos manifesta na vida e na história. Cabe-nos acompanhá-los na construção de um futuro esperançoso para a humanidade e para a Terra, indicou-nos o P. Geral, Arturo Sosa S.J., ao estabelecer esta tarefa como uma das quatro preferências apostólicas universais para os próximos dez anos.

Reconhecendo que existem diferentes modelos e modos de ser jovem, conforme tenha nascido num lugar ou noutro, possua uma cultura determinada, domine um particular idioma materno, ou pertença a um específico setor socioeconômico, pode-se constatar que os jovens compartilham pelo menos cinco características ou dinamismos que lhes permitiria converter-se em ponta de lança na construção e defesa de uma nova civilização, um novo modo de viver, de conviver, de produzir e de compartilhar.

Antes de tudo, o seu intenso desejo de liberdade. Os jovens têm um fino radar para detectar as várias escravidões sociais e humanas tecidas por interesses de todo o tipo. Seu inegociável e sincero desejo de justiça para erradicá-los. Abundante e coerente generosidade no esforço diário que isso implica, espontânea e contagiante alegria nessa luta. E uma sincera e lúcida abertura para que a experiência pessoal e grupal de transcendência ética ou religiosa seja a que alimente, sustente e renove continuamente esse caminhar para que a terra seja a nossa cada comum, que as relações sociais e interpessoais estejam marcadas pela aceitação de uma mútua e mesma dignidade, e que o sentido pleno da vida de uns não se estabeleça à custa do dos outros.

A atual figura histórica, caracterizada pela globalização da crueldade humana, a destruição socioambiental, a fraude cínica, o materialismo desenfreado, o lucro como motor da história, a diversão superficial, a exclusão social e o fanatismo mental detectou com hábil astúcia que é nos jovens onde mais e melhor se aninha a possibilidade de ´resistência´ a que nos exortou Ernesto Sábato. Tanto pelo que essa resistência tem de rejeição e aversão à sua mentira grosseira, como pelo que tem de parto e criação de algo novo e diferente.

É por isso que para a maioria deles é negada a formação competente e crítica, que são fechadas cada vez mais as oportunidades de trabalho decente, que são empurrados para a pobreza, que são incitados à violência, que se tenta dopá-los, que se procura dividi-los, e sutilmente persuadir de que tudo o que fizermos, essa ´ânfora partida´, em que, segundo Ernesto Cardenal consiste o ser humano, não tem remédio.

Na América Latina e no Caribe, todos os inacianos (jesuítas e leigos) que colaboramos na missão do Senhor para nos dar ´vida e vida em abundância´ e que trabalhamos com milhares de jovens através de vários ministérios, temos recebido com entusiasmo o convite da Igreja para redescobrir nos jovens, em sua realidade, em suas pessoas, em seus ideais e mesmo em seus sofrimentos, esse dom da vida como dom de Deus e como tarefa para todos. E acolhemos com gratidão e compromisso a decisão da Companhia Universal de acompanhar os jovens com um espírito de escuta e proximidade leal, sendo eles ponta de lança no advento de uma ´nova terra´ e de um ´novo céu´.

 

Rolando Alvarado S.J.

Provincial da América Central

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