Como dói esta América!

Publicado: Sexta, 01 Fevereiro 2019
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Terminamos o primeiro mês do ano entre a dor e a esperança; como um parto doloroso que gostaríamos de acelerar para que desponte a luz e a vida se torne livre. A dor de mais de três milhões e meio de venezuelanos que estamos vendo vagar pelas estradas e ruas de nossos países e cidades, com os pés arrebentados, sua ´tralha´ nos ombros, seus rostos marcados não só pela exaustão, mas pela desesperança, é o que nos corta a alma. Detrás de cada um deles há histórias de famílias numerosas, de pais, mães, idosos, crianças deixadas para trás e que vivem com medo, com fome, sem saúde nem remédios, sem trabalho, sem futuro na sua própria terra.

Aos nossos companheiros e companheiras da Venezuela, enviamos nossa melhor e mais fraterna saudação. Vocês têm toda a nossa solidariedade; enviamos-lhes o melhor de nossa energia e lhes oferecemos a ajuda que necessitem. Rezamos todos os dias para que Deus lhes dê a sabedoria e a força para resistir ao ódio, para serem testemunhas de reconciliação e justiça entre irmãos.

Mas nós rezamos e estamos permanentemente atentos, também

  • Ao que acontece na Nicarágua, onde todos os ideais duma revolução realizada com muito sangue e sofrimento foram traídos por um ditador que se mostrou ser pior do que aquele que ajudou a destronar, e onde nossos irmãos jesuítas resistem com coragem e integridade sem par;
  • E também o que acontece em Honduras, onde, depois de um ano de fraude eleitoral, o poder executivo, vinculado a interesses econômicos obscuros e ilegais, mantém a sua política de terror e cinismo, ignorando o grito e a profética denúncia de milhares de homens e mulheres pobres que se organizam em caravanas para fugir, porque não encontram em sua terra nem um presente para eles, nem um futuro para os seus filhos. Ali também os companheiros e companheiras da Rádio Progreso e do ERIC, do Colégio San José e das paróquias de Yoro, se mantêm firmes ao lado do povo, buscando - com muitos outros - alianças que conduzam à democratização do país.
  • E estamos atentos ao que acontece na Guatemala, onde a corrupção campeia - como em tantos outros países da nossa América Latina – até ao ponto em que o governo, vendo-se ameaçado pela Comissão Internacional de Investigação e Combate à Impunidade (CICIG), decidiu fechar unilateralmente o acordo com a ONU para seu estabelecimento e validade.

Autoritarismo, fraude e corrupção, todos são males que afligem nossos países, e dos quais não se salva nenhum na América Latina e no Caribe. Isso é evidente ao observar o nível governamental macro; mas, no fundo, trata-se de atitudes e maneiras de proceder que têm suas raízes estendidas em todas as instituições da nossa sociedade e em todos os níveis, sem excluir a nossa pobre e santa Igreja Católica, da qual os jesuítas somos 'arte e parte' e que só começam a mudar por uma decisão pessoal e comunitária radical (é preciso arrancá-las às vezes com dor). Se não é assim, como podemos falar de Deus e anunciar uma boa notícia aos pobres, a libertação aos cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar um ano de graça do Senhor? Fazemos a diferença à nossa volta? É a pergunta que nos deixa o mês de janeiro.

Abraço fraterno a todos.

Roberto Jaramillo, S.J.

Presidente da CPAL

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