Janeiro 2019: Conservar e aumentar o corpo da Empresa de Jesus em seu bom ser

Publicado: Terça, 01 Janeiro 2019
1
2
socialshare
0
s2sdefault

O que tenho vivido nestes anos de meu serviço como Provincial me leva a propor-lhes algo que para Santo Inácio, nosso Fundador, era fundamental e definitivo: preservar e aumentar o corpo da Companhia de Jesus em seu bem-estar.

Inácio nos propõe na 10ª Parte das Constituições: Para manter e desenvolver não somente o corpo, isto é o exterior da Companhia, mas também o espírito, e para realizar o objetivo pretendido, que é ajudar as almas a atingir o fim último e sobrenatural, os meios que unem o instrumento com Deus, e o dispõem a deixar-se conduzir fielmente pela mão divina, vencem em eficácia os que o dispõem em relação aos homens. Tais são a bondade e a virtude, e especialmente a caridade e a pura intenção no divino serviço, a familiaridade com Deus nosso Senhor nos exercícios espirituais de devoção, e o zelo sincero das almas, sem procurar outro interesse senão a glória d´Aquele que as criou e resgatou. Deve, portanto, procurar-se que todos os da Companhia se deem às virtudes sólidas e perfeitas e às coisas espirituais às quais hão de ligar mais importância do que à ciência e a outros dons naturais e humanos. Pois são os dons interiores que devem dar eficácia aos exteriores com relação ao fim que se pretende [813].

Vivemos numa sociedade e numa cultura onde aparece com muita força o critério da ´eficiência´; isto é, daquilo que emerge de uma avaliação importante do que se faz e de planejamento e execução exaustivos do que deve ser feito. Mas a pergunta se isso é realmente transformador da realidade profunda de cada ser humano, de suas relações com os outros e das relações com a vida à nossa volta, geralmente permanece como um aspecto marginal que acaba sendo inviabilizado o deixado de lado, para terminar na inesgotável corrida do trabalhar, do render e do produzir, à custa da vida plena e abundante.

A questão fundamental que se coloca para o corpo apostólico da Companhia de Jesus não é propriamente quanto ao que fazemos, mas se ao fazê-lo somos eficazes em tocar o coração dos outros, transformar as relações entre as pessoas, buscar atingir a vida querida pelos habitantes de um território e melhorando o cuidado da nossa ´casa comum´. A ´eficácia´, como Santo Inácio a vê para conservar e manter o corpo da Companhia de Jesus em seu bom ser, surge de algo que acontece no interior de cada um de nós: da experiência do amor transbordante de Deus, manifestado em Jesus Cristo, que nos lança para viver no amor pelos outros e pela natureza; um amor que se torna criador da vida, reconciliador da humanidade, serviçal com os necessitados, justo e equitativo nas relações sociais, preocupado em aliviar o sofrimento e a enfermidade de muitos e entregue até dar a vida para tornar realidade esse amor em todos os âmbitos da existência.

E os meios que nos propõe para viver essa ´eficácia´ são aqueles que nos permitem estar profundamente unidos a Deus, de tal maneira que nos disponham a nos deixar levar por Ele: vivendo uma estreita familiaridade com Deus através dos exercícios espirituais, discernindo o modo de proceder por onde Deus quer que vivamos, gerando uma vida de bondade, de respeito e valorização do outro, com uma grande sensibilidade para buscar o melhor para todos, trabalhando por estabelecer uma sociedade que garanta uma vida plena e abundante para a totalidade das pessoas, deixando de lado o querer e o interesse egoísta que nos fecha sobre nós mesmos e nos disponibilizando para o serviço incondicional dos outros.

Voltemo-nos a perguntar sincera e honestamente, com a ajuda do que Santo Inácio nos propõe para conservar e aumentar o corpo da Companhia de Jesus em seu bom ser, se estamos sendo realmente ´eficazes´ a partir da vivência, em nós, do estilo de Jesus, dos seus sentimentos e das suas opções (36ª Congregação Geral, Decreto 1, n.18.), para transformar a nossa vida e nossas relações sociais e ecológicas neste mundo no qual vivemos. Porque só nesta perspectiva podemos discernir e levar adiante a missão que Deus vem nos confiando para promover a fé, servir a justiça, viver o ministério da reconciliação, entrar em diálogo com as culturas, as religiões e as ciências, e fazer tudo em colaboração com homens e mulheres de boa vontade que buscam que a vida floresça, para o bem de toda a humanidade.

Carlos E. Correa, S.J.

Provincial da Colômbia

+ Palabra de la CPAL