Um grito de Haiti, para que os jesuítas da CPAL nos escutem e ajudem

Publicado: Terça, 31 Março 2020
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O Haiti era, até ontem à noite, 19 de março, um dos poucos países onde nenhum caso positivo do Coronavírus havia sido ainda registrado, pelo menos oficialmente. No entanto, ontem à noite o governo comunicou os dois primeiros casos. Parece que as autoridades estão tomando medidas para proteger a população da pandemia. A fronteira entre Haiti e a República Dominicana está fechada desde a meia-noite de 16 de março. Num decreto que apareceu ontem à noite, o governo finalmente anunciou o fechamento de todos os portos e aeroportos do país. Todas as atividades culturais, educacionais e religiosas foram suspensas. A angústia se transforma em medo. Vive-se um pânico nacional quando se reconhece a fragilidade e precariedade do nosso sistema de saúde, a promiscuidade e a falta de higiene que caracterizam a vida do povo haitiano e, principalmente, dos mais pobres dos pobres. 4,1 milhões de haitianos já vivem em insegurança alimentar; calculamos que, nos próximos dias, especialmente com o fechamento de portos e aeroportos, essa crise vai se agravar, expondo à fome mais da metade da população haitiana. Os produtos já estão faltando nos supermercados.

Enquanto isso, na 2ª. feira, dia 02 de março, o Ministro do Meio Ambiente e da Economia e Finanças, Jouthe Joseph, foi nomeado e empossado Primeiro-Ministro pelo presidente da República, Jovenel Moïse. Ele substitui Jean Michel Lapin, que foi nomeado interino há mais de um ano. Espera-se que este novo governo encerre o longo ciclo de instabilidade política e violência social e econômica. O governo dos Estados Unidos, que tem apoiado sem reserva este governo impopular e incompetente, teria que fornecer-lhe um apoio real para combater a miséria, a impunidade e a corrupção. Por outro lado, após vários dias de manifestações violentas organizadas pelos agentes policiais para reivindicar o direito de formar um sindicato, o governo concordou com suas demandas. Uma semana antes, havia sido anunciado um programa de segurança social chamado ´ona-polis´ para tentar restabelecer a calma nas fileiras da polícia.

Em meio a toda esta situação frágil e difícil, a Companhia de Jesus no Haiti continua buscando seu caminho e a sua própria voz. À luz das PAU estamos repensando nossa maneira de ocupar o espaço e trabalhar, a partir de três grandes opções: educação, espiritualidade e administração ou governo. Temos podido discutir tudo isso com o Provincial do Canadá por ocasião de sua visita anual, em fevereiro passado.

Nossa grande preocupação continua sendo Fé e Alegria. Nos últimos dois anos, com a equipe que dirige a obra, temos nos dedicado a fortalecer a rede e a estrutura administrativa e pedagógica. Em fevereiro passado, realizou-se uma Mesa Técnica (em Ouanaminthe, norte do país), da qual participaram uma equipe da Entreculturas, a Federação Internacional e o Presidente da CPAL. Apresentou-se ali uma prévia do relatório de uma auditoria profissional realizada nos últimos meses. Seguindo suas recomendações, queremos renovar e potencializar o sistema e o pessoal contábil, e temos que enfrentar duas grandes urgências: sanar um déficit acumulado de U$ 250.000 dólares e constituir um fundo de investimento capaz de nos ajudar com os salários dos professores enquanto continuamos a reivindicar do governo que cumpra o seu compromisso de pagar aos professores. No Haiti temos que estar presentes no mundo da educação se quisermos que nossa contribuição seja significativa e duradoura. Por isso, não estamos apenas abertos, mas pedimos a ajuda de todos vocês, tanto em recursos financeiros para nos ajudar a ir adiante (quanto puderem!... como a viúva do Evangelho) como em recursos humanos para responder com eficácia esta missão tão essencial como é Fé e Alegria num país como o nosso.

Os escritórios de Fé e Alegria, e do Serviço Jesuíta a Migrantes, estão alojados em estruturas pré-fabricadas e ´temporárias´ faz 10 anos, na ocsião do terremoto, e estão totalmente deterioradas. Nossos colaboradores e colaboradoras trabalham em condições limite. Por isso, gostaríamos de contar com um espaço de trabalho para abrigar o conjunto de trabalhos de Fé e Alegria, o Centro Social SJM e CERFAS e a Escola de Formação de Professores que já conta com mais de 600 alunos e que viria a ser o nosso Instituto de Formação Superior, que funcionará onde está agora o centro de espiritualidade, em Tabarre. Esse projeto nos permitiria interecambiar serviços e compartilhar a mesma estrutura administrativa.

Por outro lado, desde o início deste ano acadêmico, temos concentrado muitos esforços na melhoria dos espaços físicos, na administração e na qualidade da educação no Colegio San Ignacio, que oferece atendimento a mais de 700 jovens de uma parcela muito vulnerável da região metropolitana. O grande desafio é adquirir um espaço maior para poder realocar ou ampliar a escola com o objetivo de oferecer melhores condições, implementar com mais eficácia a pedagogia inaciana e realizar as atividades esportivas que nos permitam combater o individualismo e a violência. Também estamos buscando colaboradores e ajuda para poder dispor de mais espaços e oferecer um melhor serviço. Seria muito bom se pudéssemos nos beneficiar da ajuda da FLACSI e voltar a contar com a ajuda da Rede Claver para o impulso que precisamos.

Entre 22 e 29 de fevereiro, recebemos a visita do P. Erik Oland, nosso Provincial do Canadá. Com ele, além de discutir nossa nova visão para os próximos 10 anos, visitamos alguns dos habitantes de Carrefour Charles (localidade no sudoeste) como parte do projeto para criar uma paróquia jesuíta no Departamento de Grand'Anse. A delegação foi calorosamente recebida pela população que fez uma apresentação festiva no final da reunião. Se esse projeto se concretizar, haveria duas paróquias nossas nessa região atingidas pelo furacão Mateo. Como a instalação dessa paróquia exige energia e recursos, gostaríamos também de ter o acompanhamento e a solidariedade da RELAPAJ (Rede Latinoamericana de Paróquias Jesuítas).

Agradecendo à CPAL por nos proporcionar hoje este espaço para compartilhar nosso trabalho, projetos e missão, gostaríamos de lembrar que o Haiti - juntamente com a Amazônia e Cuba - é um dos territórios prioritários da missão comum da CPAL. Por isso, esperamos e faço um apelo fraterno para que as províncias que compõem a Conferência, e em particular os Provinciais e os jovens jesuítas, para que olhem para nós e nos acompanhem no processo de autonomia e de maior serviço ao povo haitiano. Pedimos-lhes que sejam sensíveis às nossas necessidades e urgências quanto a recursos humanos, infraestrutura, financiamento e formação. Reiteramos nosso desejo de receber os jesuítas desejosos de colaborar conosco no nível da universidade, onde vários de nós colaboram e há um reitor jesuíta, para nos ajudar a finalizar e pôr em marcha o projeto de um instituto de formação superior de professores. Que alguns irmãos jesuítas se ofereçam a vir com humildade a este sofrido povo haitiano e nos ajudem a pensar e planejar nossas estruturas administrativas, jesuítas apaixonados pela missão de Fé e Alegria. Este é um grito de socorro que gostaríamos que toda a Companhia de Jesus na América Latina ouvisse e considerasse.

Com a crise mundial causada pelo coronavírus, as grandes cidades vão debruçar-se sobre si mesas. O risco inevitável é que se esqueçam das populações pobres, dos mais vulneráveis. Somos os mais carentes de toda esta grande região.

Esperamos que a Companhia continuará sendo solidária, recordando ao mundo inteiro a nossa existência e o desejo profundo para que o nosso povo viva dignamente.

 

 

Porto Príncipe, 20 de março de 2020

Jean Denis SAINT-FÉLIX, SJ

Superior dos Jesuítas no Haiti

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