Definindo-se como “pensador de esquerda”, o ex-peemedebista, hoje filiado ao PDT, colabora com a possível candidatura de Ciro Gomes à Presidência em 2018. Ele disse que o governo de Michel Temer mostra “falência intelectual”.

**Eis a entrevista**

+++ Quais as consequências da ascensão política dos evangélicos?

O desmerecimento preconceituoso dos evangélicos é um dos maiores escândalos de nossa vida nacional. Eles encarnam a nova consciência que se afirma no país: cultura de autoajuda e de iniciativa.
Difunde-se essa consciência a partir de pequena burguesia empreendedora, evangélica e católica, e alcança número crescente de trabalhadores mais pobres.

+++ A teologia da prosperidade pode ser produtiva economicamente?

O cerne da teologia neopentecostal não é o culto da prosperidade conquistada pelo esforço individual; é a reverência pelo empoderamento dos crentes. Há muito a criticar, a começar pela tentação de isolar-se em comunidades pautadas por padrões superiores de conduta em vez de lutar para reconstruir as instituições econômicas e políticas. Se estiver, porém, calcada no desrespeito e no desconhecimento, a crítica não presta.

+++ Então, é positiva a ascensão dos evangélicos para o país?

Como pode não ser boa se são mais de 40 milhões de brasileiros? Como se pode imaginar vida política no país sem a sua participação? É uma distorção da ideia republicana imaginar que as pessoas não possam legitimamente inspirar as suas convicções políticas em convicções religiosas.

+++ Há setores na esquerda que acham incompatível ter simpatia pelo segmento evangélico e empreendedor.

A ideia central da esquerda – do único tipo de esquerda que vale a pena preservar – é a concepção do engrandecimento dos homens e das mulheres comuns. A diminuição das desigualdades é acessória a esse objetivo. Não repitamos no Brasil a trajetória calamitosa da esquerda europeia, que demonizou a pequena burguesia, ajudando a convertê-la em sustentáculo dos movimentos de direita e distanciando-se das aspirações reais dos trabalhadores.

+++ As eleições municipais representam vitória para a direita?

A interpretação de que a eleição foi avanço da direita e do populismo sem definição programática é distorcida. Vários dos políticos eleitos são classificados como de direita porque são próximos a essa pequena burguesia empreendedora a que me referi. A esquerda gosta de vê-los como conservadores e seus representantes, portanto, como políticos de direita, mas eles não se veem assim.

+++ O que mostram os resultados?

O eleitor tratou de sobreviver: defender-se e resguardar sua comunidade. Desprezou rótulos ideológicos convencionais. Escolheu sem levar a sério o discurso que os partidos preferem porque imaginam, falsamente, que o povo quer açúcar.

+++ Confia na saída da crise pelo programa do governo Temer?

O governo que acaba de ascender na onda do desastre apresentou como fórmula o corte das despesas públicas, condição necessária, porém radicalmente insuficiente. Ao cingir-se a essa fórmula, as forças que tomaram o poder decretaram falência intelectual: não têm a menor ideia do que fazer, a não ser trancar o cofre e deixar chaves nas mãos dos credores da dívida pública, na esperança vã de que tanta obediência produza muito investimento. O resultado desabará sobre a cabeça da maioria trabalhadora.

++++++ A entrevista é de Thais Bilenky, publicada por Folha de S. Paulo, 05-11-2016.

+++ Fuente
* [http://www.ihu.unisinos.br/562026-ascensao-evangelica-e-positiva-diz-mangabeira Instituto Humanista Unisinos]
* Fotografía principal: Flickr - [https://www.flickr.com/photos/agenciabrasilia/ Agência Brasília]. Licencia Creative Commons