Maria de Nazaré: Modelo de Discipulado Cristão (Lc 1,26-56) – Narração da fé de uma pequenina

Publicado: Viernes, 12 Octubre 2018
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Mary of Nazareth: Model of Christian Discipleship (Lk 1: 26-56) – Narrative of the Faith of a Little One

Jaldemir Vitório S.J.

 

Texto publicado na revista Perspectiva Teologica, Belo Horizonte, v. 50, n. 2, Maio/Agosto 2018, p. 289-306. Reproducido com autorización del Autor.

Introdução

 

A fé dos pequeninos de todos os tempos norteia a caminhada dos discípulos do Reino, em busca de fidelidade a Deus e de honestidade no trato com o semelhante. O evangelho de Lucas contém uma declaração lapidar de Jesus, suficiente para desmontar certas estruturas religiosas, com o verniz cristão, porém, carregadas de arrogância e de desprezo pelos marginalizados social e religiosamente: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes essas coisas aos sábios (sophói) e entendidos (synetói) e as revelastes aos pequeninos (nepiói)” (Lc 10,21). Portanto, o testemunho de fé dos pequeninos torna-se referência segura de fé autêntica, ao mesmo tempo em que desmerece a pretensão dos arrogantes, cuja religiosidade é vazia, muito distante da verdadeira fé.

A catequese lucana apresenta Maria de Nazaré como paradigma da fé de um pequenino. O díptico formado pela anunciação (Lc 1,26-38) e pela visitação a Isabel (Lc 1,39-56) permite perceber a raiz e a dinâmica da fé, que vai de Deus ao próximo, da contemplação à ação, da escuta à prática da Palavra. As entrelinhas da perícope evangélica são perpassadas de dinamismo espiritual, exemplar para o leitor da catequese lucana de todos os tempos e lugares, mormente, quem deseja fazer a experiência de fé como a “humilde serva” de Nazaré.

Este texto tem o objetivo de fazer a análise narrativa de Lc 1,26-56 para verificar como foi construído o personagem Maria de Nazaré e sua função na catequese do evangelista Lucas. A identidade de Maria de Nazaré delineia-se em suas falas e em seus gestos. No que faz e no que diz, mostra-se quem é!

O evangelista propõe aos leitores e às leitoras, no início de sua catequese, um modelo de discipulado cristão, calcado no testemunho de Maria de Nazaré. Quem se der ao trabalho de lê-la, assimilá-la e transformá-la em projeto de vida, terá a mesma grandeza humana e espiritual da mãe do Messias Jesus, a discípula exemplar.

  • A pequenez agraciada por Deus

O paradoxo da narrativa evangélica corresponde ao modo divino de agir. Ao longo da história, as mediações divinas foram pessoas simples do povo, sem qualquer destaque social (Ex 4,10; Jz 11,1; Jr 1,6). Eis porque Deus envia o anjo Gabriel, “a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré” (Lc 1,26). Os galileus eram vítimas dos preconceitos dos habitantes da Judeia, que os consideravam “povo da terra”, judeus de categoria inferior, pela contaminação religiosa e cultural, de longa data (Jo 7,49). Aliás, chamavam aquela região de “Galileia dos pagãos” (Is 8,23b). Para completar, o anjo Gabriel dirige-se a Nazaré, cidade perdida nas montanhas, fora das grandes rotas de comércio e de trânsito. Um sinal de sua absoluta falta de importância pode-se deduzir de a Bíblia fazer alusão a milhares de cidades, exceto Nazaré. Nenhum fato bíblico, importante ou não, é reportado como tendo acontecido nessa cidadezinha ignorada. Jo 1,46 reporta a admiração de Natanael, quando Filipe refere-se a Jesus, na condição de Messias: “De Nazaré pode sair algo de bom?” O preconceito que recaiu sobre Jesus, igualmente, recaía sobre Maria. Entretanto, ela não se deixou bloquear por esse peso malévolo, antes, assumiu com grandeza de alma o que Deus lhe propunha. A disponibilidade para Deus, no episódio da anunciação, revela um modo de proceder da Mãe de Jesus. O sim dito a Deus, naquele momento preciso, fluiu na sequência de muitos outros “sins”, com os quais sua vida era tecida. As palavras de disponibilidade ao projeto divino brotavam de uma vida toda centrada no querer de Deus, embora o cotidiano de Maria, em nada, se diferenciasse do dia a dia das demais mulheres de Nazaré (BOFF, 2003).   

Outro paradoxo diz respeito ao ser Maria, ao mesmo tempo, virgem (parthénos) e desposada (emnesteuméne) com José, “da casa de Davi” (Lc 1,27). Deus se afeiçoará de tal mulher e, com ela, fará uma espécie de aliança, confiando-lhe a enorme tarefa de ser a mãe do “filho do Altíssimo”, a quem seria dado “o trono de Davi, seu pai” (Lc 1,32).

Só os simples estão aptos para enfrentar experiências de fé dessa magnitude. Os sábios e poderosos estão incapacitados, por serem cheios de si mesmos e seus projetos, a ponto de não haver espaço em seus corações para acolher, com total abertura, o que vem de Deus. “O fato de Maria, menina pobre de Nazaré, conceber Jesus Messias, o Filho de Deus, indica que o Deus da vida inverte a ordem social: os pobres e oprimidos se tornam sujeitos da história com o projeto de solidariedade e fraternidade” (NAKANOSE, 2012, p. 14).

A simplicidade de Maria impede-a de compreender a saudação angélica, que a chama de “cheia de graça” (kecharitoméne), agraciada, “eleita pelo favor de Deus”, e declara: “O Senhor está contigo!” (Lc 1,28). “Não é de se admirar que Maria, pessoa humilde e pobre, tenha ficado confusa e impressionada diante da saudação do anjo” (MESTERS, 1978, p. 57). Daí a perturbação e a incerteza do significado de tudo aquilo (Lc 1,29). A condição humilde (tapeínosis – Lc 1,48) não a permitia tomar as palavras do anjo Gabriel como evidentes. Pareciam não se enquadrar em sua realidade! Sua autoconsciência era a de uma mulher simples do povo, sem qualquer predicado especial para justificar o que ouvia o anjo comunicar-lhe. Teria havido um engano? Gabriel se equivocara e se dirigira à pessoa errada? A “intervenção da força assombradora e assombrosa de Deus”, em sua vida, extrapolava todos os limites do imaginável (OLIVEIRA, 2000, p. 57).

Maria “confessa que foi sua situação de pequenez que atraiu o olhar misericordioso de Deus” (BOFF, 2009, p. 342). Deus volveu o olhar “sobre a humildade (tapeínosis) de sua serva” (Lc 1,48) e percebeu estar à altura de se tornar colaboradora na obra salvífica, em favor da humanidade. A decisão divina, portanto, teve uma motivação específica. Por isso, Maria foi destinada “a fazer coisas grandes”, em nome do Deus Santo e Poderoso (Lc 1,49).

A observação do narrador, em Lc 1,56, para fechar a cena da visitação, corresponde a Lc 1,38, declaração conclusiva da cena da anunciação. A radicalidade de Maria, ao se colocar inteiramente nas mãos de Deus, equipara-se à sua radicalidade no serviço à prima Isabel. A informação – “Maria permaneceu com ela cerca de três meses” – deve ser interpretada para além da conotação cronológica. De fato, o leitor é informado que Maria serviu Isabel, durante todo o tempo em que necessitou. E só voltou para Nazaré, quando percebeu não ser mais necessária sua ajuda. Enquanto a prima careceu de cuidados, esteve junto dela para servir, com total gratuidade, pensando, apenas, na atenção a lhe ser dispensada. Só se sentiu liberada ao perceber que a prima estava em condições de retomar, por si só, a rotina doméstica. A fé de Maria e o seu sim a Deus expressaram-se como dedicação integral à prima fragilizada pela gravidez na velhice, da mesma forma como se entregara, totalmente, ao projeto de Deus. “Maria é, assim, apresentada como uma mulher pobre da periferia, consciente e comprometida com a causa dos pobres” e com a causa de Deus (NAKANOSE, 2013, p. 15; cf. MESTERS, 1978, p. 32-33.41-44).

 

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